Domingo, 9 de Outubro de 2016

...

 

São vivências atribuladas,

Que não poderei esconder,

Ficarão dissimuladas

Até que alguém os queira ler.

 

 

 

Faça-se luz brevemente

Cada um em sua mente

Assim é a roda da vida.

 

 

 

Apareça alguém novamente,

Que cantando pausadamente,

Restabeleça a causa perdida.

 

 

Infância

 

 

Se bem me lembro, claro!

Como se fosse hoje,

Sim, o crepitar da lenha na fogueira,

Fazendo uma roda, sentados à lareira,

Rebanhos cintilantes no morrão da caldeira,

E, aquele vinho bom a sair da torneira,

Melhor casta, formosa videira.

 

Se bem me lembro, claro!

Como se fosse hoje,

Sim, o quarto frio onde nasceste,

A nossa aldeia onde cresceste,

A tal escola onde aprendeste,

E aquela capela onde meditavas,

Orações do Senhor? Tu não rezavas!

 

Se bem me lembro, claro!

Como se fosse hoje,

Sim, ao chafariz ora indo ora vindo,

Rapazes seguiam, raparigas sorrindo.

Principalmente em cada domingo,

Naquele bailarico no adro da igreja,

Cada um se escondia, a mãe que não veja.

 

Se bem me lembro, claro!

Como se fosse hoje,

Sim, aquela criança que quase nua,

No meio das galinhas brincava na rua!

Chama p’la mãe que não é sua.

Grande miséria assim seria?

Viver com tão pouco, mas tanta alegria!

 

 

Aniversário

 

I

Que maravilha, que doce viver,

Repasto real com arroz ou puré,

Água na boca fazendo crescer,

Franguinho assado pronto a comer,

Qualidade de vida assim é que é.

 

II

Ardia a lenha sob a caldeira,

Infusão de ervas tão fumegante,

Já nada restava na assadeira,

Encostados à mesa mesmo à maneira,

Comendo bolacha, doce e crocante.

 

III

Velas nem vê-las, bolos não havia,

Vinho do bom, a sair da torneira,

Rica pomada, nem provoca azia,

Pouca quantidade mal não fazia,

Era divinal esta brincadeira.

 

IV

O que não havia, falta não fazia.

Ainda hoje juntos nos lembramos,

Quão sóbria a nossa alegria,

Recordo com uma certa nostalgia,

Era tão bonito o dia dos teus anos.

 

 

 

O Libertador

 

 

 

Canta o poeta errante, o nosso pranto,

Angustiado, ai Fernando Pessoa,

Chegou o momento de afastar o manto

Oh, que mensagem, sublime encanto,

É a hora, É a hora, de subir à proa.

 

 

  1. Sebastião, D. João Primeiro,

Ou D. João Segundo, o sublimado,

Venham os três numa manhã de Janeiro,

É a hora de surgir do nevoeiro,

Ao menos um, á tanto tempo esperado.

 

 

Um povo inteiro que brada aos ais

Ergamos o rosto, acabe-se o pranto,

Venham daí dizimar os chacais,

Acabemos em terra c’os sargaçais,

Pois no mar, a raça lusa pode tanto.

 

 

Quem vos poderá trazer? Ninguém!

Heróis nossos, sublime eloquência…

Rasgando o mar, o mostrengo vem,

À deriva nas ondas esperamos alguém,

Depressa, evitai a decadência. 

 

 

 

 PÁTRIA MÃE

 

 

È quase uma ilha esta terra de ilusões.

Que maravilhosa beleza encanto de país,

Este recanto que eu canto, é de Camões,

E de Bocage, assim se diz e rediz.

 

 

 

Grandes poetas, maiores feitos históricos,

Que salvou a nado o corajoso Luís,

Grande Vaz, de vícios alegóricos,

Á muito jaz, este rapaz de cariz.

 

 

 

Ao menos um, que da terra brote,

Traga poemas dentro de um pote,

Venha ver sua terra descarnada.

 

 

 

Senão venham os dois, ou um magote,

Todos os poetas, venham a trote,

Salvar sua pátria muito amada.

 

 

 

 

 

 

O REGABOFE

 

 

 

É bom tão bom, este viver,

É de todos pública esta função,

Discernimento p’ra nada fazer,

Amando a vida, e a reinação.

 

 

Centro do Emprego, bate-se à porta,

Emprego, Sim… se não for exigente.

Trabalho, Não… o que importa

É a reformazita p’ra gente.

 

 

 

Pois é, vem de cima este exemplo,

Aqui em baixo, eu os contemplo,

Bem se mama, melhor se come.

 

 

 

Cá em baixo, é fome e esperança,

Venha um dia a bonança,

Que agora só já temos fome.

 

 

 

 

 

 

 

“O ZÉ PASTOR do PEREIRO”

 

 

 

 

No alto socalcos, o penedio,

Avisto a terra, na fraga onde nasceu,

Catita aldeia, onde reina o frio,

A mocidade foi lá que a perdeu.

 

 

Avisto ovelhas, ouço o seu balir,

De leve se afagam nos carvalhos,

Nos pendores da serra estou a ouvir,

Melancólico tanger de seus chocalhos.

 

 

O sorriso no rosto do pastor,

Que nutre pelas ovelhas maior amor,

Continuamente vive a sonhar.

 

 

A maior liberdade são seus anseios,

Beber da natureza sem receios,

Perder-se… p´ra se voltar a encontrar.   

 

 

 

 

 

 

 

 

A AVÓ

 

 

 

Lavadeira que lava, é tão nobre,

Lençóis de linho de mil bordados,

Por causa do vinho, causa tão pobre,

Gerou sem razão, desígnios louvados.

 

 

 

Em família abastada ela viveu,

Houve um percalço, fruto de enganos,

O impossível atingiu-a, aconteceu,

Desígnios da vida, tão desumanos.

 

 

 

O marido emigrou. Infeliz coitado…

Vida dura, inóspita e vil.

Sensível causa, enorme pecado!

Sem lençóis de linho, bordados mil.

 

 

 

A dignidade muito abalada,

Aldeia pequena, maior vergonha,

De casa dos pais foi afastada,

- Os pés nunca mais aqui ponha!

 

 

 

Na casa sombria tudo lhe falta,

Cozinha vazia, é fraco o alento,

Lidando na casa, a noite já alta,

Durante o dia ganhando o sustento. 

 

 

 

A caminho da igreja quando a viam,

Com a petiz sempre acompanhada,

Algumas impuras dela se riam,

Da nova vivência amargurada.

 

 

 

Lavadeira que lava o linho,

Com suas lágrimas maior brancura,

 Calcorreia as pedras do seu caminho,

Faz pela vida com muita bravura.

 

 

 

Tantos anos assim nesta vida,

Parca de enganos, isenta de afectos,

Um objectivo sagrado na vida,

Ser mãe dos filhos, e mãe de seus netos.

 

 

 

 

 

 

 CUMPLICIDADES

 

 

Vagueiam na minha mente desperta,

Lembranças esporádicas, reais

Adolescência vivida, gente esperta,

Os carros de bois chiando nos currais.

 

 

E tu contemplando esta paisagem,

Aldeia prenhe de beleza infinita,

De quando em vez alguma aragem,

Na tua face cálida, bonita.

 

 

E eu na minha infância enredado,

Laços que não consigo desprender,

Bastou eu me ter lembrado,

Para o destino voltar a acontecer.

 

 

É verdade, lembraste da escola?

Claro do intervalo, que brincadeira,

E a velha Celestina com a sacola,

A pedir ajuda coitada, que canseira.

 

 

E tu olhando-a com desgosto,

Ficavas tão triste o dia inteiro,

Eu aprendi a ler no teu rosto,

O sorriso estampado de Janeiro

O nosso jardim com as flores,

A bonita roseira que a escola tem,

O malmequer desfolhando amores,

Bem-me-quer, mal-me-quer quer-me bem.

 

 

 

Pela manhã, quando o sol desperta,

Esperavas por mim no terreiro,

Tu eras aquela menina esperta,

Andavas no quarto, e eu no terceiro.

 

 

 

Mandava aquele rapaz, parente meu,

Papelitos de amor de quando em vez,

Palpitava o seu coração pelo teu,

Era enorme a sua timidez.

 

 

 

E no S. Martinho, em Novembro,

No lavadouro que brincadeira

Claro ainda agora me lembro,

Queríamos ascender a fogueira.

 

 

 

Depois à noite o borralho,

Queríamos que fosse eterno,

Era para servir de agasalho,

A este carinho tão fraterno.

 

 

 

No natal era ponto assente,

Pondo o sapatinho no lugar,

De manhã e quase sempre,

Algo iríamos encontrar.

 

 

 

Acordados, a sonhar, ou a dormir,

De mansinho aí vem, pé ante pé,

Assim escorregando sem cair,

Silenciosamente p’la chaminé.

 

 

 

Eternamente eu te dou vivas,

Por estes momentos lembrados,

Espero que ao leres revivas,

Estes anos já passados.

 

 

 

Outros tantos ainda vivas,

Revivendo o tempo passado,

Para que ao folhear me digas:

- Afinal tu estás bem lembrado.

 

 

 

 

 

publicado por Carlos Pereira às 19:25
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 24 de Março de 2016

O Moinho Velho

P'la madrugada, o sol encoberto,

Alva farinha no saco de linho,

Vinhas devagar, o passo era certo,

Já sorria, não estava sozinho.

 

Jorrando liquido, sempre por perto,

A mó rodava tão de mansinho,

Linda paisagem, o canal aberto,

Água correndo para o moinho.

 

Uns anos mais tarde, trinta talvez,

A conduta da água o que lhe deu,

A esbelta mó desapareceu!

 

Não mais voltarei, nem mais uma vez,

As silvas são tantas, o que aconteceu,

Ninguém s'importou com o que era teu.

 

 

 

 

publicado por Carlos Pereira às 17:43
link do post | comentar | favorito
|

Casa de pedra e barro ruim

Esta brisa suave, no mês de Agosto,

De preto vestida... senhora pobre,

Velhinha... que acaricia o meu rosto,

Reúne o rebanho, após o Sol-posto,

A sopa serve... o pão desencobre.

 

Uma breve oração... é muita a fé,

É grande o sorriso, enorme a destreza,

Bancos há poucos, ficamos de pé,

Peguilho repartido, assim é que é,

Momento sagrado, em volta da mesa.

 

Uma candeia, lá vai debitando,

Alguma luz,nenhum contratempo.

Pega na côdea, já vai labutando,

Na masseira, o pão amassando,

P'ra me sorrir, ainda tem tempo.

 

Como é possível, uma vida assim,

Feliz com tão pouco, tanta pobreza!

Por vezes a tempestade não tem fim,

Numa casa de pedra, e barro ruim,

Abriga a família... que riqueza.

 

 

publicado por Carlos Pereira às 17:40
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 11 de Abril de 2015

Mulher

Teus queixumes teus lamentos

No mais profundo do meu ser guardados

São chacota de sentimentos

 

Crianças sem nada e tão felizes

 

Lágrimas derramadas

Páginas de dor sofrimento

Afinal de que te queixas

Afinal o que te falta

 

Crianças descalças disputam um naco de pão

Existências de algibeiras vazias

Tão cheias de vida confiantes

Num futuro próximo que se avizinha melhor

 

Perturba-te a abundância

O exagero do que tens e não consomes

Tudo se perderá e tu também

Nada do que possuis é teu

Tudo se desprenderá nesta efémera passagem pela vida

Moribunda de afetos

Tudo findará num dia cinzento

Mas porquê porquê agora

Esse raio de sol que não compareceu

Motivou talvez essa entrada de rompante

No vazio

Lançada para o meio do nada

Coração arrebatado dessa janela tão alta

Teus queixumes teus lamentos

Quem te convenceu que ganharias asas

Se tu nunca soubeste voar

 

publicado por Carlos Pereira às 12:24
link do post | comentar | favorito
|

Só mente Abril

Coragem mundo novo

Outro Abril há-de nascer

Gravado na alma do povo

Em mais um amanhecer

 

E quando o abutre perecer

Devorador sem piedade

Há-de outro cravo florescer

Das cinzas... a liberdade

 

Florirá uma nova Atenas

Não será na Grécia apenas

Mas na Europa e no Mundo

 

Se me quiserem calar

A Alma terão que arrancar

Deste pobre vagabundo

 

publicado por Carlos Pereira às 12:23
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 27 de Março de 2015

Nenhures

 

 

Deambulam pelas ruas

Deslocam-se para aqui para além

Conforme o toque do vento

Essa brisa suave fria

que lhes marca o rosto a face

Sim ao sabor do vento

Não sabem para onde vão

Nem porque se movimentam

Mas sabem que chegarão

A parte nenhuma

A um vazio intemporal...

Quem são?

Gente, pessoas!

publicado por Carlos Pereira às 15:14
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 20 de Março de 2015

Cem anos a salvar vidas

 

Opção tão grata por ti escolhida,

Difíceis momentos que passas na vida,

Aquela mãe que a filha adora,

Vinham da Cerdeira àquela hora.

 

Interrompe-se a ida, assim de repente,

Choque frontal que grande acidente,

Hirto e firme, o bombeiro implora,

Levem daqui, a criança que chora!

 

Na ambulância alguém a conduz,

Acabou a esperança, seu raio de luz,

Descolorida, a mãe que jaz morta,

Pobre menina, que a bombeira conforta.

 

Uma menina que a outra transporta,

Até tem nome que nos importa,

Na mente outro acidente que ocorreu,

Pensa na avó que atropelada morreu.

 

Desígnios da vida, que crueldade,

Estradas portuguesas, que mortandade,

Choram as duas que pobre imagem,

Perdeu-se outra mãe, acabou a viagem.

 

 

publicado por Carlos Pereira às 17:13
link do post | comentar | favorito
|

Rebeldia de amor

 

Quis amar mas não sabia,

Distinguir o que era amor,

Sofri muito e, quando te via,

O meu coração tremia,

Aumentando o meu pavor.

 

Não sabia o que dizer

Pois aquilo que eu sentia,

Já estás mesmo a ver,

Sentimento p'ra valer,

Algo que eu não conhecia.

 

Num largo olhar, num lampejo,

Teu coração me seduz,

É a ti que eu desejo,

Ao acordar eu te vejo,

Fonte repleta de luz.

 

Sentimento? Não, loucura!

Batalha ganha a perder.

Livre? Prisão que perdura!

Dor, ciúmes, que amargura,

Amar tanto e tanto querer!

 

Fito o céu, eu vejo o mar

Tu numa onda com um véu,

Está turvo o meu olhar,

De em ti sempre pensar,

Olho o mar eu vejo o céu!

 

Sou da noite e vivo nela,

De dia suspiro a sonhar,

Só te vejo a ti donzela,

Não me apagues essa vela,

Á noite quando acordar!

 

 

publicado por Carlos Pereira às 17:13
link do post | comentar | favorito
|

Rescaldos

 

 

Reinava a confusão

Naquela tarde de Agosto

Por causa da regionalização

E também dum fogo posto.

 

Rapazes vamos depressa

Anda o fogo no lameiro

Condutor toca a dar mecha

Directos a Vascoveiro.

 

Agarrada à escada

A bombeira vai segura

Percorrendo a estrada

Em cima da viatura.

 

O vendaval era grande

Fogo em mato rasteiro

De noite não há quem ande

O fogo chegou ao Pereiro.

 

É só barrocos Manel

Que andam aí a fazer

Regressem já ao Quartel

Vamos lá toca a mexer.

 

Quase em flagrante

Foi apanhado o imundo

Falem com o Comandante

Explicou o Segundo.

 

Não devem fazer queimadas

Nesta época de Verão

Senão ficam danificadas

As belezas da povoação.

 

 

publicado por Carlos Pereira às 17:11
link do post | comentar | favorito
|

Tentação

 

 

 

Tu que me querias lançar as garras,

Que despropósito ou leviandade,

Liberto estou dessas amarras,

Eu que prezo tanto a liberdade.

 

A liberdade espiritual

No meu rebanho terei presente

Cativo estou, não te quero mal

Nunca cederei, só se demente.

 

Perdoa-me, sou bom cristão,

A Deus pertenço, é meu caminho,

Dá outro alento ao coração,

 

Encontrarás um outro ninho,

Sê consciente na reflexão,

Vai! Não te percas passarinho!

 

 

publicado por Carlos Pereira às 16:57
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


.posts recentes

. ...

. O Moinho Velho

. Casa de pedra e barro rui...

. Mulher

. Só mente Abril

. Nenhures

. Cem anos a salvar vidas

. Rebeldia de amor

. Rescaldos

. Tentação

.arquivos

. Outubro 2016

. Março 2016

. Abril 2015

. Março 2015

. Dezembro 2014

. Julho 2014

. Abril 2008

. Março 2008

blogs SAPO

.subscrever feeds